Creio que todos tenham algo escrito em algum pedaço de papel; eu me surpreendo comigo quando encontro pedaços do meu pequeno passado e deixo nessa página vaga alguns pensamentos extraídos de dois velhos cadernos:
Aprendi a demolir o picar
Ensinei os meus olhos a olhar fixo
Muitas vezes a pior dor é a de não dizer; a de não chorar de fome, nem partir o pé de birra ou torcer o bico de saudade e outros atributos que enfeitam a face daquele que espera.
(2006)
Sempre gostei da terra depois da chuva
Mas eu nunca pensei sendo planta que não se enxuga
Porque os ventos ainda fazem frio
Meus pés tem raízes no chão
Meu caule parece sem seiva
Vejo todos com a vergonha tão exposta, mas mesmo assim parecem tão altos , parecem tão fortes, parecem flutuar sob o chão.
Criei as raízes do pensamento, mas sou planta cujo vento não move folhas de esperança. Balança, mas não sinto.
Dança a estender o geotripismo agudo de um solitário do último heredidátio que a mãe natureza produzi sem querer
(2006- Luciana Garrida)
Presente, ausente, ausente, sorridente?
Nada disso importa no velho diário quando se sabe por um segundo a resposta que se responde e nada diz que desenhe a cor do giz e lhe encerre a pó de cal branco os conteúdos que dizem o afora, mas nem tem certeza do agora sem um raio humano de vista
(2006)
Voltas quadradas aos mesmo lugares, das idas e vindas, salas, estares..
Segredos sem surpresa, corredores vazios das tantas casas.
Estamos no afora, embora viajando o centro da casa
Quando algumas palavras se cansam das letras
A sopa de letrinhas tem apenas um sabor:
A casa barulhenta dos quartos à cozinha
O ruído dos carros atravessados
Uma batida para o tempo de uma viela
E nós continuamos das outras enforcados
(2006)
Parece não ter tido nunca vitória sobre o apertamento de nossas pernas.
Mulheres cujas calças de liberdade hoje aprisionam
Rasgam as saias fantasmagóricas do passado.
que as calças não tenham comprimento algum.
Que as alcinhas realcem as vestimentas que enfeitam as coisas, coisas que são mais que as próprias roupas
Ser mulheres vestir pernas às calças tamanho 38 e andar o eterno caminho de lutas desiludidas com o zíper da libertação que fecha qualquer passado na ponta dos dedos, suga o supor do calor de dessabor da romântica nudez
(2006)
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